16/12/10

CAMINHOS VÃOS



Estou cansado, nem sei de quê

Nem lhe descubro o porquê

Bem tento

E quanto mais eu o faço

Maior se torna o cansaço

Pode até ser um momento

Daqueles que enjeitamos

Sem lhe saber a razão

Mil voltas ao pensamento

De repente, num momento

Eis clara a solução:

Estou cansado deste país

Que apodrecida a raiz

Me cansa, já sei do quê

É desta esperança adiada

De um povo que corre a estrada

Mas cujo fim não vê

MORREU A MARIA



Bolas

Morreu a Maria

A Maria do Alviela

Sempre com grande alegria

De quem o bairro se ria

Por ser figura castiça

Mas, hoje, chiça...

Já ninguém se lembra dela


Bolas

Morreu a Maria

Quando irá a enterrar?

Está numa gaveta fria

à espera que a reconheçam

Mas já Maria não é.

Foi sempre do Alviela

E também da fereguesia

Mas ninguém se lembra dela


Bolas

Morreu a Maria

Num tempo que não tem jeito

Porque nada é como dantes

De recordações distantes

Dos tempos da simpatia

E dos tempos do respeito

Em que todos riam dela

Em sincera galhofeira

Mas, ao morrer a Maria

Morre um pouco o Alviela

E a memória do bairro

Porque se esqueceram dela


Bolas

Morreu a Maria

Está mais pobre o Alviela

Está numa gaveta fria

Mas ninguém se lembra dela

E todos hoje perguntam

Mas quem era essa Maria?


25/05/10

Soneto (quase inédito) escrito em 1969


Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno “sacrifício”
De trinta contos – só! – por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

JOSÉ RÉGIO

20/02/10

Amor



Só porque pediste

Ora bem,
Pediste-me um poema
Porque há muito não publico nada blog
Mas de quê e de quem
Com que tema?
Como escrever sem que me sufoque?
Porra, ele são escutas,
São maldades sempre constantes,
Permanentes lutas
De uma estripe de comportamentos diletantes
Que me cansam
Que recuso
Que contesto
Alinhar em tudo isto será incesto
E reajo, só pode ser, contra ao abuso
Dos crápulas que em doce palavras nos amansam
Escrever, sim, mas com revolta
Escrever sim para falar bem alto
Para o país dar uma volta
Terminando o constante sobressalto
De mil rumores que se ouvem e proliferam
Que as almas mais humildes dilaceram
Num jogo vil, de lóbis, pois então.
Que termine de vez este xadrez
Porque não é só de quando em vez
Que o povo precisa pão.
E podem não gostar dos críticos
De acordo….
Com o mesmo direito que me assiste
De não gostar dos políticos
Mas digo e desafio. Povo, luta e resiste.

26/01/10

Calado





Isto sou eu:
Calado, triste, sorrindo.
Escutando e não ouvindo
Querendo ser (não sendo eu)
Isto sou eu ou não sou?
E quem por mim procurou
E me encontrou
Teve sorte;
Reconheceu-me na morte
Dum momento em que fui eu.

A ironia que há
No facto de me quererem
Como eu não me quero
De amarem o que eu faço
Nunca o que eu sou.

23/01/10

João Salgueiro, o que é que te veio à cabeça?

(Na corrida da Nova Gente, na Praça de Toiros do Campo Pequeno, em 2007)


Corrida da “Nova Gente”;
Sabemos que realmente
Há dias de pouca sorte.
E no 4º, um mansarrão
Com intre(estu)pidez o João
Resolveu brincar com a morte

Numa lide para resolver
Deu a volta e com saber
A um toiro manso perdido
Meteu os ferros da ordem
Mas as coisas mal ocorrem
Quando o destino é parido

E pronto já para sair
Com o publico a aplaudir
A “faena” que foi possível
Mais um ferro, só mais, um
Se não mete mais nenhum
Não acontecia o incrível

“Venha-me de palmo um ferro
Sou Salgueiro e não me aterro”
Ah, égua e espora danada.
Arrima-se e ao ladear
Já não consegue evitar
A colhida da montada

Eis quando senão acontece
São coisas que a vida tece
Por incrível que pareça
Apeia-se e frente ao toiro
Põe em risco o próprio coiro
Não estava bom da cabeça

“È toiro, bicho danado
Vais sair daqui esganado”
E seguindo no seu encalço
Afasta o peão de brega
Parecendo fazer-se à pega
Acontecendo o percalço

Cita de frente o bichano
Assumindo um ar ufano
Gesto de qual valentia?
Sorte e azar em mistura
Estiveram nesta loucura
Que em tempo algum não se via

O público fica expectante
Com tal atitude aberrante
E aparatosa colhida
Mas p’ra gáudio da multidão
Está na trincheira o João
Mesmo no fim da corrida

Artistas cruzam a arena
Para ele não vale a pena;
Pensa, e é gesto evitado
Mas perante a insistência
Lá enfrenta a assistência
Tendo sido assaz vaiado

Que lhe sirva de lição
E em acto de contrição
Jamais repita a proeza
Por respeito à ‘afición’
Que seu toureio seja dom
De raro garbo e destreza.