25/05/10

Soneto (quase inédito) escrito em 1969


Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno “sacrifício”
De trinta contos – só! – por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

JOSÉ RÉGIO

20/02/10

Amor



Só porque pediste

Ora bem,
Pediste-me um poema
Porque há muito não publico nada blog
Mas de quê e de quem
Com que tema?
Como escrever sem que me sufoque?
Porra, ele são escutas,
São maldades sempre constantes,
Permanentes lutas
De uma estripe de comportamentos diletantes
Que me cansam
Que recuso
Que contesto
Alinhar em tudo isto será incesto
E reajo, só pode ser, contra ao abuso
Dos crápulas que em doce palavras nos amansam
Escrever, sim, mas com revolta
Escrever sim para falar bem alto
Para o país dar uma volta
Terminando o constante sobressalto
De mil rumores que se ouvem e proliferam
Que as almas mais humildes dilaceram
Num jogo vil, de lóbis, pois então.
Que termine de vez este xadrez
Porque não é só de quando em vez
Que o povo precisa pão.
E podem não gostar dos críticos
De acordo….
Com o mesmo direito que me assiste
De não gostar dos políticos
Mas digo e desafio. Povo, luta e resiste.

Só porque tu pediste


Ora bem,Pediste-me um poema

Porque há muito não publico nada blog

Mas de quê e de quem

Com que tema?

Como escrever sem que me sufoque?

Porra, ele são escutas,

São maldades sempre constantes,

Permanentes lutas

De uma estripe de comportamentos diletantes

Que me cansam

Que recuso

Que contesto

Alinhar em tudo isto será incesto

E reajo, só pode ser, contra ao abuso

Dos crápulas que em doce palavras nos amansam

Escrever, sim, mas com revolta

Escrever sim para falar bem alto

Para o país dar uma volta

Terminando o constante sobressalto

De mil rumores que se ouvem e proliferam

Que as almas mais humildes dilaceram

Num jogo vil, de lóbis, pois então.

Que termine de vez este xadrez

Porque não é só de quando em vez

Que o povo precisa pão.

E podem não gostar dos críticos

De acordo….

Com o mesmo direito que me assiste

De não gostar dos políticos

Mas digo e desafio. Povo, luta e resiste.

26/01/10

Calado





Isto sou eu:
Calado, triste, sorrindo.
Escutando e não ouvindo
Querendo ser (não sendo eu)
Isto sou eu ou não sou?
E quem por mim procurou
E me encontrou
Teve sorte;
Reconheceu-me na morte
Dum momento em que fui eu.

A ironia que há
No facto de me quererem
Como eu não me quero
De amarem o que eu faço
Nunca o que eu sou.

23/01/10

João Salgueiro, o que é que te veio à cabeça?

(Na corrida da Nova Gente, na Praça de Toiros do Campo Pequeno, em 2007)


Corrida da “Nova Gente”;
Sabemos que realmente
Há dias de pouca sorte.
E no 4º, um mansarrão
Com intre(estu)pidez o João
Resolveu brincar com a morte

Numa lide para resolver
Deu a volta e com saber
A um toiro manso perdido
Meteu os ferros da ordem
Mas as coisas mal ocorrem
Quando o destino é parido

E pronto já para sair
Com o publico a aplaudir
A “faena” que foi possível
Mais um ferro, só mais, um
Se não mete mais nenhum
Não acontecia o incrível

“Venha-me de palmo um ferro
Sou Salgueiro e não me aterro”
Ah, égua e espora danada.
Arrima-se e ao ladear
Já não consegue evitar
A colhida da montada

Eis quando senão acontece
São coisas que a vida tece
Por incrível que pareça
Apeia-se e frente ao toiro
Põe em risco o próprio coiro
Não estava bom da cabeça

“È toiro, bicho danado
Vais sair daqui esganado”
E seguindo no seu encalço
Afasta o peão de brega
Parecendo fazer-se à pega
Acontecendo o percalço

Cita de frente o bichano
Assumindo um ar ufano
Gesto de qual valentia?
Sorte e azar em mistura
Estiveram nesta loucura
Que em tempo algum não se via

O público fica expectante
Com tal atitude aberrante
E aparatosa colhida
Mas p’ra gáudio da multidão
Está na trincheira o João
Mesmo no fim da corrida

Artistas cruzam a arena
Para ele não vale a pena;
Pensa, e é gesto evitado
Mas perante a insistência
Lá enfrenta a assistência
Tendo sido assaz vaiado

Que lhe sirva de lição
E em acto de contrição
Jamais repita a proeza
Por respeito à ‘afición’
Que seu toureio seja dom
De raro garbo e destreza.


Dois pontos

Dois pontos,
Foi a tua proposta, em tom provocador,
(salvo o respeito e a amizade que me mereces).
Não aceito, sinceramente, tal veleidade,
Mas respondo ao repto: (dois pontos) -
É que sem espírito para contar contos
E sem querer conquistar pontos,
Acredita, se quiseres, nesta verdade,
Sem pontos. -
Quem não se afoita, acreditando no amor e,
Se quem espera desespera,
O que detém algo de verdade: -
Sem peias nem meias, quero manter a liberdade
De que gostem de mim porque sim.
Não porque sou assim.
Não porque sou assado.
O importante é que acreditem em mim
Como um homem leal e apaixonado.
Como a vida não deve ser arena de tontos,
Só posso terminar, retorquindo, pois:
Que se tudo o que se almeja não for obra de dois,
Que queres que te diga – Dois pontos?
Se algo mexe com as nossas consciências,
Sem que exista capacidade de interacção,
Bem ao largo há que por o coração
E urtigas para os dois pontos: - reticências…